Andersen. Again?

  O perseverante soldadinho de chumbo é um conto de fadas? Ele não tem príncipe garboso, nem termina com “foram felizes para sempre”.

Ah! Mas tem tanta fantasia…

Ao mesmo tempo é metáfora para o que acontece na vida real. A trama pode ser vista como circular, simbólica, reafirmando a tese de que nada vai sem volta, de que o começo está perto do final, de que a partida está ligada à chegada.
O herói é alguém tão, tão simplizinho, é um soldado; e sequer é um soldado real, mas um pedaço de chumbo na forma de um. E nem foi feito direito, faltou chumbo e ficou só com uma perna.
Esse personagem ordinário, entretanto, mostra aquela coragem ainda mais admirável por despontar apesar do medo. É justamente a valentia de superar vicissitudes, mesmo quando se sente medo e frágil, a verdadeira coragem.
O que há de novo nesse tão conhecido conto escrito por Hans Christian Andersen no século XIX?
É a história dessa edição de 2011 que faz dela algo significativo na Literatura Brasileira. E na arte.

Traduzida diretamente do dinamarquês e com projeto gráfico de Livro Álbum, a nova versão do conto foi concebida no âmbito de um projeto da Sociedade Amantes da Leitura. A publicação foi possível graças ao talento e ao compromisso do escritor Tabajara Ruas e da artista plástica Jandira Lorenz, assim como ao entusiasmo e profissionalismo da equipe da Peirópolis, que graciosamente editou a obra.
O lançamento do livro ocorreu na Biblioteca Barca dos Livros, no dia 02 de abril de 2011, durante as comemorações do Abril com Livros. Este programa, que abarca o projeto de publicação de uma coleção de contos de Andersen (o primeiro foi O Patinho Feio) é realizado anualmente desde 2005, no dia Internacional do Livro Infantil, que comemora a data de nascimento de Hans Christian Andersen.
Neste Perseverante Soldadinho de Chumbo, os desenhos e colagens conversam com o texto leve e poético de Tabajara Ruas, sobre o boneco de chumbo perdido de amores por uma bailarina de papel, sobre seu salto involuntário pela janela e uma perigosa jornada pelo desconhecido.  Tabajara Ruas, como sócio fundador da Sociedade Amantes da Leitura, cedeu os direitos da tradução para a sociedade e Jandira Lorenz, conceituada artista plástica de Santa Catarina, presenteou a biblioteca com os originais das ilustrações.

por: Nadir Ferrari

Título: O Perseverante Soldadinho de Chumbo
Autor: Hans Christian Andersen
Tradução: Tabajara Ruas
Ilustração: Jandira Lorenz
Editoria: Peirópolis

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Medalha do Mérito Cultural Cruz e Sousa para Barca dos Livros

A Barca dos Livros é uma das instituições que foi homenageada pelo Estado de Santa Catarina, com a Medalha Cultural Cruz e Sousa.

SALIM MIGUEL GANHA PRÊMIO DA ABL

Elaine Borges
(Texto primeiramente publicado no blog da autora
www.balaiodesiri.blogspot.com)
Uma boa notícia: Salim Miguel ganhou o Prêmio Machado de salim miguelAssis da Academia Brasileira de Letras (ABL). O prêmio é dado aos escritores cuja obra é considerada “expoente da literatura nacional”.
Ao saber da premiação Salim disse ao DC: “Para um escritor e jornalista, depois de uma vida inteira dedicada à leitura e à escrita, receber o maior prêmio da Academia é uma grande satisfação e uma sensação de dever cumprido”. 

Confesso que é com muita emoção e alegria que registro esse acontecimento. Salim Miguel é um dos mais importantes escritores de Santa Catarina.

E se um dia alguém me perguntasse: “qual seu personagem inesquecível?” Eu diria: “Salim Miguel”. E não teria dúvidas em citar os momentos memoráveis – poucos, mas substanciosos – que passei conversando com ele tendo, ao lado, a sempre presente companheira Eglê Malheiros.
Há prazer maior do que falar em literatura? Em lembrar os grandes clássicos? Em recordar pedaços da vida e contar saborosas histórias passadas na sua longa e rica vida? Salim Miguel é assim, um grande conversador. Aquele que sabe usar as palavras. Que fala do tempo e memória – seus temas sempre recorrentes – e nos leva a percorrer seu mundo mágico – ou às vezes trágico – sempre com uma pitada de humor, de ironia, de sabedoria.
Salim é o homem da palavra. Tanto faz manuseá-la através da escrita ou oralmente. A palavra é o seu instrumento de trabalho. Por isso, não é de surpreender quando, muitas vezes, ao ouvir histórias, ele logo comente: “isso dá um conto”. Nesses mais de cinqüenta anos de vida literária foi isso exatamente o que ele fez de maneira magistral: usar a palavra, seu dom maior.
Se escrever é o seu grande dom, não é menos importante sua interferência na vida cultural nos lugares por onde passa. Generoso, gosta de dividir, de compartilhar, de incentivar, de participar de projetos onde sempre está embutido o ato de criar nas artes visuais, na literatura, na música, no teatro, no folclore, enfim na soma de tudo isso que chamamos cultura.
Seu papel na Superintendência da Fundação Franklin Cascaes (1993/1996), no governo popular de Sérgio Grando, prefeito de Florianópolis na época, foi exatamente este, de incentivador.
Salim Miguel é assim, um homem de idéias, coerente, ético. Na Fundação Franklin Cascaes entendeu o sentido da palavra popular. Todas as manifestações culturais contaram com seu apoio e incentivo. Procurou parcerias, brigou por mais verbas por entender que cultura sempre deve ser prioridade e não apenas um adendo de um governo democrático e participativo. E não foram poucas às vezes em que lutou bravamente para ampliar o percentual no orçamento do município destinado à FFC.
Escritor, jornalista, animador cultural, nada o separa de tudo que envolve o ato de criar. Com certeza foi como jornalista que burilou sua capacidade já inata de ouvir histórias, pois jornalista nada mais é do que aquele que sabe ouvir para bem contar. E foi ouvindo que Salim escreveu boas reportagens para a revista Manchete. Muitas dessas reportagens depois se transformaram em contos.
Uma vez, em Chapecó, onde foi fazer uma matéria para a revista Manchete sobre os balseiros que carregavam toras de madeira nas corredeiras do rio Uruguai, percebeu que o que via dava um conto. Surgiu então Ponto de Balsa, do livro As desquitadas de Florianópolis.
Entre seus personagens há também o cego João Mendes. Esse não saiu da sua imaginação, mas foi, com certeza, o homem que o ajudou a mergulhar no mundo do imaginário. Dono da única livraria de Biguaçu e cego, Mendes propôs ao menino Salim que lesse em voz alta para ele. A partir daí, foram incontáveis tardes de leituras, as mais variadas. Começava ali a formação literária daquele menino. Salim lembra: “Quando eu queria jogar futebol, passava próximo à livraria bem devagarzinho. Mas cego tem a audição melhor do que a nossa e dizia – ah, agora que não precisas mais de mim, foges”.
Salim dizia que, quando deixasse a Superintendência da Fundação Franklin Cascaes, voltaria ao seu mundo, o mundo da memória, do tempo, do imaginário. Queria buscar os personagens que fazem parte do seu mundo literário. Ou até personagens reais que se eternizaram em seus livros. Como o “seu” Fedoca, prefeito da sua eterna Biguaçu, cuja grande obra foi a construção de um mictório público e foi ele mesmo, o nobre prefeito, o primeiro a inaugurá-la dando uma rápida mijadinha. Ou então o Ti Adão, personagem sempre presente em seus vários contos. Ti Adão contava infindáveis histórias e Salim Miguel – também um bom ouvinte – soube memorizá-las, guardando-as eternizadas em seus diversos livros.
E se escrever é um ato extremamente solitário, não se pode separar Salim Miguel de outra manifestação cultural: o cinema. Quando ele ouve histórias logo percebe que dali pode escrever um belo conto, nós, quando lemos seus textos, logo percebemos que aquela história daria um filme. É assim, por exemplo, com o conto Ponto de Balsa, ou As Queridas Velhinhas – do livro A Morte do Tenente e Outras Mortes. Esse é o dom do grande escritor, fazer com que entremos em seu mundo dando vida aos seus personagens.
O roteiro do filme O Preço da Ilusão – primeiro longa metragem realizado em Santa Catarina – são dele e de Eglê Malheiros. E também a adaptação e roteiro de A Cartomante, de Machado de Assis, também com Eglê Malheiros e Marcos Farias.
Impossível não citar talvez um dos mais importantes momentos da cultura catarinense: o surgimento do Grupo Sul e da Revista Sul (1948/1958). O Grupo Sul desenvolveu intensas atividades culturais, montando e encenando peças teatrais, publicando livros, exposições de arte moderna…

E se, cumprida sua missão na Fundação Franklin Cascaes, Salim Miguel sonhava voltar ao seu mundo da memória, do tempo, do imaginário, o fez em grande estilo: em 1999 ganhou o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte por seu livro Nur na Escuridão (dividido com Antonio Torres com Meu Querido Canibal). Em Nur na Escuridão, Salim Miguel aborda com maestria seu tema recorrente, presente em quase toda sua extensa obra literária: memória mesclada com invenção.
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Salim Miguel receberá o prêmio, no valor de R$ 100 mil, no dia 23 de julho, no Rio de Janeiro, na sede da ABL. Onde também vai lançar Os Melhores Contos de Salim Miguel, pela editora Global.
Veja abaixo livros de Salim Miguel disponíveis na Biblioteca Barca dos Livros.

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