Um mundo mágico chamado Maria Clara Machado.

Artigo de Gil Guzzo*

O teatro infantil tem sido, ao longo de sua história, motivo de alegria e de agonia para milhares de pais e mães preocupados com o desenvolvimento intelectual e cultural de seus filhos. Que confiança nós podemos ter ao levar nossos filhos ou filhas para assistirem a uma das centenas de montagens comerciais e visivelmente mal intencionadas, onde a criança é um mero detalhe? Quantos de nós não saímos frustrados de uma peça infantil sem saber o que dizer para nossos filhos? Isso parece um tanto quanto fatalista. De fato o é, mas é uma realidade muito presente no teatro infantil de norte a sul do país. Quem convive de perto com o dia-a-dia da profissão de ator, já deve ter ouvido mais de uma vez, por exemplo, que um grupo de atores se juntou para fazer uma peça infantil para ganhar dinheiro. Este é só um exemplo entre tantos outros e não cabe aqui levantarmos uma discussão sobre a qualidade técnica e vocação para o teatro infantil. O que se quer é alertar para a importância do quão sério é e deve ser o teatro infantil na formação de uma criança.
Se por um lado somos brindados com péssimos exemplos, de outro somos presenteados por artistas – autores, atores, diretores – que têm um verdadeiro amor e respeito pelas crianças e pelo teatro. E um desses grandes artistas é, com toda justiça quando se fala em teatro infantil, Maria Clara Machado. Como nenhuma outra, Maria Clara Machado e o seu teatro são até hoje referência de cultura, arte e entretenimento para gerações de pais e filhos, desde meados da década de 50.
Maria Clara Machado, com seus textos e com o Tablado – seu grupo de atores e laboratório para o seu teatro – inundou com magia e encantamento o público e influenciou profundamente a carreira de inúmeros atores que até hoje – a maioria deles já em sua fase artística mais madura – não conseguem esquecer a importância dessa grande mulher de teatro em suas formações artística e pessoal. Vale destacar que estes privilegiados atores, por questões geográficas, eram cariocas ou viviam na cidade do Rio de Janeiro no momento de suas formações profissionais.
Maria Clara Machado desde cedo teve a arte e o teatro correndo em suas veias. Era filha de escritor, cresceu em um ambiente artístico e logo cedo começou sua carreira no teatro. Ainda jovem, montou um grupo de teatro de bonecos que manteve por cinco anos, antes de mudar-se para Paris em 1950, para estudar teatro com uma bolsa oferecida pelo governo francês. Depois de um ano, voltou ao Brasil e fundou o Tablado, um verdadeiro centro de formação e produção teatral infantil, que dirigiu até a sua morte em 2001.
Mas você pode estar pensando: Não sou ator nem vivo no Rio de Janeiro, o que posso fazer para absorver um pouco do teatro de Maria Clara Machado? Assistir a uma das inúmeras montagens de seus textos, que são periodicamente produzidos por muitos grupos de teatro em todo o Brasil, ou então entregar-se ao prazer da leitura com a coleção de seis volumes lançados em 2009 pela Editora Nova Fronteira, que traz nada menos do que vinte e nove textos de Maria Clara Machado.
Esta é uma oportunidade para você conhecer a obra da mais importante autora do teatro infantil brasileiro, que escreveu grandes sucessos como O Cavalinho AzulA Bruxinha que era boaAs Cigarras e as FormigasTribobó City e o maior de todos eles: Pluft, o fantasminha.
Pluft, o fantasminha, rendeu diversos prêmios a Maria Clara Machado e tornou-se uma das peças teatrais mais importantes da literatura brasileira. Em cada volume da coleção, você vai encontrar depoimentos emocionados de atores que passaram por lá, como Malu Mader, Marcelo Serrado, Louise Cardoso, entre outros. E em um dos volumes, o aval de Bárbara Heliodora, a crítica teatral mais severa do teatro brasileiro, amada e odiada por muitos atores e atrizes. Para ela, Maria Clara Machado acreditava na inteligência e na imaginação das crianças e do universo infantil. E, como base nisso, construiu com talento e criatividade um legado para o enriquecimento cultural de crianças de todas as idades. Bárbara Heliodora diz que o talento e curiosidade dos seus textos – que divertem, emocionam e estimulam a imaginação -, são completados com a qualidade técnica e estética indiscutíveis de suas montagens, que desenvolviam atenção e apreciação simultâneas nos expectadores.
Maria Clara Machado ganhou praticamente todos os prêmios de teatro em sua longa carreira e em 2009 recebeu premiação especial na terceira edição do Prêmio Zilka Sallaberry de Teatro Infantil, criado pelo CEPETIN – Centro de Pesquisa e Estudo do Teatro Infantil. A edição 2009 do mesmo prêmio traz a indicação de melhor ator a Christian Coelho, por seu trabalho em O CAVALINHO AZUL, em cartaz na cidade do Rio de Janeiro.
Escritora, autora, professora e diretora teatral, Maria Clara Machado criou, em mais de cinqüenta anos de carreira, um universo mágico que tem o teatro como guia e as crianças como um diamante a ser lapidado com respeito, amor e arte.
Maria Clara Machado: Leia sozinho e sinta-se criança. Leia para seus filhos e mergulhe na magia do teatro.

* Gil Guzzo é ator, diretor e dramaturgo. É formado pela Escola de Arte Dramática (EAD) da Universidade de São Paulo (USP) e em Comunicação pela PUC Campinas. Atualmente é mestrando em Teoria Literária na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde desenvolve pesquisa sobre a nova dramaturgia brasileira. Em mais de 12 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 60 filmes publicitários. Escreveu 4 textos teatrais e um livro de contos inédito. Atualmente é diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio (Núcleo de pesquisa e produção teatral contemporânea), coordena um Ciclo de Leituras Dramáticas, ministra aulas de teatro para jovens e adultos e esteve em cartaz com o espetáculo Ainda é Cedo Amor, de sua autoria, em março de 2010.

www.gilguzzo.ato.br

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