Conversa com a escritora catarinense Eglê Malheiros

As participantes do curso de Literatura Infantil e Juvenil
(de 06 de junho a 04 de julho de 2009) tiveram o prazer de ler e e estudar o livro “Os meus fantasmas”, de Eglê Maguellheiros.
Conheça melhor a escritora, através da estrevista a seguir:

Tânia — Os meus fantasmas, teu último livro, me fez lastimar que sejas tão bissexta: por que publicas tão pouco? O livro de poesia, Manhã, em 1952, o infanto-juvenil, Desça, menino, em 1985, a peça de teatro Vozes veladas, em 1996 e agora este. Há um espaço de tempo muito grande entre uma obra entregue ao público e outra: a criação literária também tem este ritmo ou as gavetas estão cheias de originais?
Eglê — Realmente eu escrevo pouco, e publico menos ainda. As gavetas não estão cheias de originais, mas há uma porção de escritos que necessitam de um último tratamento. Por que acontece isso? Sei lá, sempre tenho uma porção de outras coisas para fazer, até revisar escritos de outros. Eu acho a literatura muito importante, mas ela não está, para mim, acima de viver a vida, pode ser um dado enriquecedor da vida, jamais uma substituta.

Tânia — Considero Os meus fantasmas uma novela para leitores de qualquer idade, embora catalogada como literatura infanto-juvenil. Escrita a pedido de um neto, que queria uma história de fantasma, a dedicatória engloba todos os outros netos e é também extensiva a três pessoas que presumo serem teus irmãos, pois “compartilham os teus fantasmas” e ao Salim Miguel, marido e companheiro sempre. Desde a primeira leitura, comecei a ver a obra como uma espécie de “léxico familiar”, como um resgate da memória pessoal e familiar e um legado para a nova geração da tua infância, da tua cidade, da linguagem e cultura da época, dos teus valores, muito bem trazidos para os dias atuais, onde se encaixam atualizados e reavivados. Minha leitura procede?
Eglê — Sem dúvida que tua leitura procede; és o tipo de leitora com que sonha todo escritor, penetras as várias camadas, lês o que está escrito, o sugerido e mesmo o que deixou de ser escrito. Dedico o livro aos netos, a meus irmãos e ao Salim. Os netos mal acreditam que uma avó um dia foi criança; meus irmãos leram o que só eles são capazes de ler no texto, e o Salim, que vive me cobrando que escreva, tem muita responsabilidade na publicação do livro. Sem estar explícito, o livro é muito de meus filhos, que pela vida afora me ouviram contar essas histórias.

Tânia — Os meus fantasmas encanta pelos personagens, pelo enredo e pela técnica narrativa, pela poesia e delicadeza dos temas que se entremeiam sem deixar de lado a firmeza e a solidariedade social e política. Penso que o elo de tantas qualidades é o tom e a segurança de uma narradora experiente e culta. Como foi o processo de criação e de escrita do texto?
Eglê — Fazes tantos elogios que eu fico a um tempo cheia de vaidade e em dúvida, como explicar? Aquilo que escrevo passa por um longo período de gestação, o conto, a peça ou o poema crescendo dentro de mim, e eu vou estabelecendo diálogo com as idéias e palavras que vão se organizando e, principalmente, com as emoções. Este livro começou a ser gestado no dia em que vi, recém retornada a Florianópolis, no lugar em que estivera a chácara de meu avô, depois ali construído um restaurante, o velho fumeiro, que para nós crianças servia de ponto para esconde-esconde. Eu escrevo com as vísceras, talvez por isso eu não consiga escrever com outra pessoa me olhando, é como afrontar minha intimidade; depois da primeira versão, aí, sim, entram a razão e a autocrítica, o polimento e a terrível fase do “será que está no papel tudo que pretendi dizer”? Aí o jeito é deixar dormir uns tempos e só voltar a mexer num dia em que esteja de bem com a vida. Eu costumo dizer que escrevo com o lado direito do cérebro e depois chamo o esquerdo para revisar. Sempre tive muita facilidade para escrever, inclusive a de fazer babados e rendinhas se quiser, daí não me impressionar com livros estilosos e que tentam dar calços nos leitores. Eu procuro estabelecer um chão para pisarmos – o que explica o tom coloquial e ao mesmo tempo exigente – e desafiar amistosamente que os leitores façam o caminho que eu tracei e mais, que se aventurem por trilhas que nem mesmo eu sabia estarem à espera.

Tânia — Uma característica muito evidente neste livro é a riqueza, variedade e adequação da linguagem empregada. O vocabulário sofisticado de um registro literário convive sem atritos com ditados e expressões de domínio público; nomes de personagens clássicos da literatura e da mitologia ombreiam com os novos nomes próprios compostos pelas pessoas das classes média e popular; as séries de sinônimos surpreendem pela gradação e pela falta de temor quanto ao uso, principalmente se considerarmos o público que é prioritariamente o alvo da edição e se o comparamos a tantas outras obras contemporâneas…Que dizes sobre isto?
Eglê — Eu propugno por uma literatura acessível a crianças e jovens e meu ideal é que as crianças leiam histórias à la Chaplin, com público dos 8 aos 80; não é fácil conseguir isso, mas precisamos tentar. Procurei no Os meus fantasmas, não deixar sem explicação os termos mais eruditos ou então já meio “arcaicos”, há sempre um contexto que os explica; quanto às personagens, em especial as mitológicas, tomara que o livro incite os leitores a explorar esse tesouro.

Tânia — As inúmeras atividades e papéis que exerceste e ainda exerces, profissionalmente ou não, no mundo cultural – professora, atriz de teatro, editora, crítica literária, animadora cultural, membro de júris de concursos literários, membro da equipe de criação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e dos leitores especializados desta instituição (e devo ter esquecido outros!) estão sempre relacionados ao livro, à literatura, à leitura. Infelizmente não dá para explorar tudo isto agora, mas fala um pouco desta relação tão estreita com a literatura. E conta para os leitores do Balainho um pouco da história da origem da FNLIJ, no Rio de Janeiro, onde então moravas, e do trabalho que ela vem desenvolvendo.
Eglê — Eu me sinto e sou basicamente professora. Desde os 19 anos lecionei História. Contudo, quando escrevo, não quero dar lições, quero contar uma história, trocar idéias e emoções. Sempre considerei que só merece ser professor quem respeita os alunos e se faz respeitar e tem consciência da responsabilidade de sua tarefa. A maior alegria de quem ensina é ver seus alunos irem além do professor, é assim que uma sociedade avança. Minha família não era rica, mas o ambiente cultural o era, sempre achei muito natural ler e discutir livros e idéias. Além disso, muito cedo, aprendi que pessoas honestas e boas também podiam ir para a cadeia por causa de suas lutas políticas. Quanto às outras atividades, eu me considero uma trabalhadora intelectual, irmã de todos os trabalhadores e procuro dar minha contribuição. Agora é bom dizer que criar cinco filhos (tentando não descuidar deles) e ter tantas outras atividades nem sempre foi fácil, mas sempre foi gratificante. A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil é uma associação ligada ao IBBY( International Board on Books for Young People), órgão internacional criado no imediato pós Segunda Grande Guerra, com o propósito de estimular a produção e divulgação de bons livros, que contribuam para uma cultura de fraternidade e paz entre as nações e entre os indivíduos. A FNLIJ encampa os propósitos do IBBY e acrescenta outros específicos para nosso País, quais sejam, objeto livro de qualidade, barateamento do livro, mas com exigência de qualidade, difusão do hábito de leitura, criação de bibliotecas e combate ao analfabetismo, inclusive o funcional. Distribui anualmente prêmios de estima (não remunerados) escolhendo livros em várias categorias de “O melhor para a criança” e “O melhor para o jovem”, além da lista de “Altamente Recomendáveis” . Durante nossa vida no Rio de Janeiro fui, por alguns anos, Diretora-Secretária da Fundação, Laura Sandroni era Diretora-Presidente. Éramos umas poucas pessoas, porém, com muita garra, e gosto de pensar que fizemos um bom trabalho, que hoje tem continuidade com a turma mais jovem. Lamento apenas que a Fundação não tenha se enraizado no resto do Brasil, como eu pensava que ocorreria após a queda da ditadura.

Tânia — Uma relação tão forte com literatura, livros, escritores, editores, tantas leituras: em que medida favorece o trabalho da escritora Eglê, em que medida atrapalha, dificulta?
Eglê — Sabes bem que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”; por várias circunstâncias de minha biografia, os livros sempre me foram alento e apoio, e não consigo me imaginar sem eles, mas quando escrevo só me influencia aquilo que passou a fazer parte de mim, ao lado de experiências de vida, lutas, amores e malquereres; mesmo que quisesse, eu não conseguiria ser “naive”, mas batalho pra nunca deixar de ser autêntica. Contudo é bom alertar, tal como não julgo as pessoas por seus bens materiais, também não as julgo por seus cursos ou títulos, mas sim por seu caráter e humanidade. Ter diplomas e medalhas nada mais faz do que aumentar a responsabilidade de quem as possui.

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SALIM MIGUEL GANHA PRÊMIO DA ABL

Elaine Borges
(Texto primeiramente publicado no blog da autora
www.balaiodesiri.blogspot.com)
Uma boa notícia: Salim Miguel ganhou o Prêmio Machado de salim miguelAssis da Academia Brasileira de Letras (ABL). O prêmio é dado aos escritores cuja obra é considerada “expoente da literatura nacional”.
Ao saber da premiação Salim disse ao DC: “Para um escritor e jornalista, depois de uma vida inteira dedicada à leitura e à escrita, receber o maior prêmio da Academia é uma grande satisfação e uma sensação de dever cumprido”. 

Confesso que é com muita emoção e alegria que registro esse acontecimento. Salim Miguel é um dos mais importantes escritores de Santa Catarina.

E se um dia alguém me perguntasse: “qual seu personagem inesquecível?” Eu diria: “Salim Miguel”. E não teria dúvidas em citar os momentos memoráveis – poucos, mas substanciosos – que passei conversando com ele tendo, ao lado, a sempre presente companheira Eglê Malheiros.
Há prazer maior do que falar em literatura? Em lembrar os grandes clássicos? Em recordar pedaços da vida e contar saborosas histórias passadas na sua longa e rica vida? Salim Miguel é assim, um grande conversador. Aquele que sabe usar as palavras. Que fala do tempo e memória – seus temas sempre recorrentes – e nos leva a percorrer seu mundo mágico – ou às vezes trágico – sempre com uma pitada de humor, de ironia, de sabedoria.
Salim é o homem da palavra. Tanto faz manuseá-la através da escrita ou oralmente. A palavra é o seu instrumento de trabalho. Por isso, não é de surpreender quando, muitas vezes, ao ouvir histórias, ele logo comente: “isso dá um conto”. Nesses mais de cinqüenta anos de vida literária foi isso exatamente o que ele fez de maneira magistral: usar a palavra, seu dom maior.
Se escrever é o seu grande dom, não é menos importante sua interferência na vida cultural nos lugares por onde passa. Generoso, gosta de dividir, de compartilhar, de incentivar, de participar de projetos onde sempre está embutido o ato de criar nas artes visuais, na literatura, na música, no teatro, no folclore, enfim na soma de tudo isso que chamamos cultura.
Seu papel na Superintendência da Fundação Franklin Cascaes (1993/1996), no governo popular de Sérgio Grando, prefeito de Florianópolis na época, foi exatamente este, de incentivador.
Salim Miguel é assim, um homem de idéias, coerente, ético. Na Fundação Franklin Cascaes entendeu o sentido da palavra popular. Todas as manifestações culturais contaram com seu apoio e incentivo. Procurou parcerias, brigou por mais verbas por entender que cultura sempre deve ser prioridade e não apenas um adendo de um governo democrático e participativo. E não foram poucas às vezes em que lutou bravamente para ampliar o percentual no orçamento do município destinado à FFC.
Escritor, jornalista, animador cultural, nada o separa de tudo que envolve o ato de criar. Com certeza foi como jornalista que burilou sua capacidade já inata de ouvir histórias, pois jornalista nada mais é do que aquele que sabe ouvir para bem contar. E foi ouvindo que Salim escreveu boas reportagens para a revista Manchete. Muitas dessas reportagens depois se transformaram em contos.
Uma vez, em Chapecó, onde foi fazer uma matéria para a revista Manchete sobre os balseiros que carregavam toras de madeira nas corredeiras do rio Uruguai, percebeu que o que via dava um conto. Surgiu então Ponto de Balsa, do livro As desquitadas de Florianópolis.
Entre seus personagens há também o cego João Mendes. Esse não saiu da sua imaginação, mas foi, com certeza, o homem que o ajudou a mergulhar no mundo do imaginário. Dono da única livraria de Biguaçu e cego, Mendes propôs ao menino Salim que lesse em voz alta para ele. A partir daí, foram incontáveis tardes de leituras, as mais variadas. Começava ali a formação literária daquele menino. Salim lembra: “Quando eu queria jogar futebol, passava próximo à livraria bem devagarzinho. Mas cego tem a audição melhor do que a nossa e dizia – ah, agora que não precisas mais de mim, foges”.
Salim dizia que, quando deixasse a Superintendência da Fundação Franklin Cascaes, voltaria ao seu mundo, o mundo da memória, do tempo, do imaginário. Queria buscar os personagens que fazem parte do seu mundo literário. Ou até personagens reais que se eternizaram em seus livros. Como o “seu” Fedoca, prefeito da sua eterna Biguaçu, cuja grande obra foi a construção de um mictório público e foi ele mesmo, o nobre prefeito, o primeiro a inaugurá-la dando uma rápida mijadinha. Ou então o Ti Adão, personagem sempre presente em seus vários contos. Ti Adão contava infindáveis histórias e Salim Miguel – também um bom ouvinte – soube memorizá-las, guardando-as eternizadas em seus diversos livros.
E se escrever é um ato extremamente solitário, não se pode separar Salim Miguel de outra manifestação cultural: o cinema. Quando ele ouve histórias logo percebe que dali pode escrever um belo conto, nós, quando lemos seus textos, logo percebemos que aquela história daria um filme. É assim, por exemplo, com o conto Ponto de Balsa, ou As Queridas Velhinhas – do livro A Morte do Tenente e Outras Mortes. Esse é o dom do grande escritor, fazer com que entremos em seu mundo dando vida aos seus personagens.
O roteiro do filme O Preço da Ilusão – primeiro longa metragem realizado em Santa Catarina – são dele e de Eglê Malheiros. E também a adaptação e roteiro de A Cartomante, de Machado de Assis, também com Eglê Malheiros e Marcos Farias.
Impossível não citar talvez um dos mais importantes momentos da cultura catarinense: o surgimento do Grupo Sul e da Revista Sul (1948/1958). O Grupo Sul desenvolveu intensas atividades culturais, montando e encenando peças teatrais, publicando livros, exposições de arte moderna…

E se, cumprida sua missão na Fundação Franklin Cascaes, Salim Miguel sonhava voltar ao seu mundo da memória, do tempo, do imaginário, o fez em grande estilo: em 1999 ganhou o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte por seu livro Nur na Escuridão (dividido com Antonio Torres com Meu Querido Canibal). Em Nur na Escuridão, Salim Miguel aborda com maestria seu tema recorrente, presente em quase toda sua extensa obra literária: memória mesclada com invenção.
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Salim Miguel receberá o prêmio, no valor de R$ 100 mil, no dia 23 de julho, no Rio de Janeiro, na sede da ABL. Onde também vai lançar Os Melhores Contos de Salim Miguel, pela editora Global.
Veja abaixo livros de Salim Miguel disponíveis na Biblioteca Barca dos Livros.

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