Barca dos Livros – Uma década de histórias

É PRECISO TODA UMA ALDEIA PARA EDUCAR UMA CRIANÇA
(Provérbio africano)

Era uma vez… e é ainda! Uma biblioteca… e é ainda! Até quando? Ninguém sabe. Tragam-me mil amigos antes que o sonho acabe…

Sim, é da Barca dos Livros que estou falando. Completará 10 anos de funcionamento dia 02 de fevereiro: 2007-2017. Ao inaugurá-la, sem móveis, sem funcionários, sem patrocínios, tínhamos cerca de mil livros, um grupo de amantes da leitura e um sonho comum: criar uma biblioteca especializada (e constantemente atualizada) em Literatura infanto-juvenil e Literatura e Artes em geral, que congregasse atividades culturais para o que chamamos crianças de todas as idades e que contribuísse para tornar Florianópolis uma cidade leitora. Uma cidade que se quisesse protagonista de uma outra história.

Foi um longo, prazeroso e doloroso processo, 10 anos de muito trabalho, muitas alegrias e muitas preocupações. Podemos afirmar que 60% desse tempo foram construídos apoiados sobre a generosidade e a parceria de amigos, leitores e voluntários. As alegrias estão disseminadas nos incontáveis leitores que usufruíram desse espaço (e continuam… agora mesmo, escrevo a lápis na Biblioteca, ouvindo as vozes infantis que lêem e comentam entre si as histórias que as letras e ou as imagens lhes contam), nas risadas, nos olhares, na emoção compartida, nos aplausos, nos escritores, ilustradores, contadores de histórias, fotógrafos, artistas plásticos, tradutores, mediadores de leitura, enfim, nos agentes culturais e nas gentes generosas e curiosas que buscaram em nós e nos trouxeram as boas energias que dão sustentação a este que ainda chamamos Projeto. Gostamos de pensar que as pessoas riram mais, sonharam mais, se encantaram mais graças à Barca dos Livros. Que as crianças ficaram mais felizes, compartilharam momentos mágicos e tornaram a aldeia mais criativa.

As preocupações, as noites insones ficaram por conta da manutenção da Biblioteca. Tivemos, sim, apoio financeiro de entes públicos (federais, estaduais e municipais) e privados, participamos de editais que sustentaram algumas atividades por algum tempo – atrevo-me a contar pelo menos 04 editais por ano, nem sempre contemplados – e nos períodos de bonança, conseguimos contratar funcionários (no período mais profícuo, chegamos a ter 05 funcionários!). Ou seja, ao menos em 40% do tempo de funcionamento (infelizmente tempo não contínuo) obtivemos financiamentos com prestações de contas aprovadas pelos órgãos competentes (o último deve estar em análise no MinC).

Os dois últimos anos foram, porém, de grande e quase permanente desassossego, pra dizer pouco. Ainda existimos porque o LIC – Lagoa Iate Clube – não desistiu da Barca. Podia tê-lo feito, pois devemos quase 02 anos de aluguel. Em 2016, fizemos campanha pra pagar 01 ano de aluguel, e conseguimos 10% do montante necessário, que quitou apenas 01 mês. Tivemos ampla divulgação de nossas campanhas pela imprensa televisiva, escrita e falada, mas as respostas ficaram – e continuam – aquém das necessidades.

Há os que acreditam, porém, eternos profissionais da esperança (não fôssemos brasileiros…), que a cidade, as autoridades competentes, os novos dirigentes municipais e estaduais da educação e da cultura sintam-se motivados por uma história de doação e compartilhamento que vem há 10 anos respondendo a demandas na área do livro e da leitura e na promoção de atividades culturais, suprindo ausências do poder público e da responsabilidade social de empresas sediadas em Florianópolis ( há exceções, como já afirmei, mas só preciso de três dedos emprestados para juntá-los aos meus dez e completo a contagem…).

Propus na assembleia de dezembro que fizéssemos, no aniversário dos 10 anos, o levantamento da Campanha dos “Mil Amigos da Barca”, lançada em setembro/2016, que busca reunir mil doadores de uma contribuição mensal de R$20,00 ou R$50,00. Se atingíssemos ao menos a metade até 02 de fevereiro, poderíamos deliberar pela continuidade de nosso trabalho. Do contrário, devíamos fechar. Hoje, 12 de janeiro, temos exatamente 53 inscritos. Nossa decisão deverá ser tomada em assembleia dia 07 de março. Os fatos falam mais alto que meu desejo. Não se entenda minha posição como ameaça, é apenas um cansaço triste de quem vem privilegiando o coletivo, sujeitando vida pessoal e familiar às necessidades alheias, e não vê a aldeia preocupar-se com a educação e a inclusão cultural de suas crianças e jovens. Em vez de globalizar o conhecimento, a sociedade (pós-moderna?) globaliza a indiferença?

Pra terminar, recorro ao Betinho, o irmão do Henfil: “Um país não muda pela sua economia, sua política ou mesmo sua ciência; muda pela sua cultura”. E lembro: ao contrário da Barca de Caronte, a Barca dos Livros transporta para uma vida mais plural, mais generosa, mais capaz de conviver com a diversidade e as diferenças entre pessoas e povos, qualidades que só a literatura desenvolve e solidifica…

Assino: Tanira Piacentini, tripulante voluntária da Barca.

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Sobre Barca dos Livros

A Barca dos Livros é uma biblioteca comunitária, mantida pela Sociedade Amantes da Leitura, com sede na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, que defende a importância da leitura para o desenvolvimento comunitário e individual. Desde o ano de 2009 é reconhecida como Ponto de Cultura. Tem como missão facilitar o acesso ao livro e à leitura através do atendimento diário e gratuito à comunidade, promovendo a formação de leitores e de mediadores de leitura. Funcionamento: Terça-feira a sábado, das 14h às 19h. Telefone: 48 3879.3208 Contribua com a Barca dos Livros! Banco do Brasil, Ag. 3185-2 – CC 13.058-3. CNPJ 06 022 478/0001-07. Beneficiário Sociedade Amantes da Leitura.

Uma resposta em “Barca dos Livros – Uma década de histórias

  1. Tanira, sei do seu trabalho. Fui uma das primeiras contadoras de histórias danossa querida Barca dos Livros. Santa Catarina sempre alavancou importantes projetos, assim como: Biblioteca Comunitária Barca dos Livros e a Academia Brasileira de Contadores de Histórias – ABCH – Matriz, que, após eu ter passado dois quase solitários anos em pesquisas de campo e pelas redes de comunicação, para ver se outra Academia da mesma Categoria existia, sem nada encontrar reuni um grupo de contadores de histórias, na Biblioteca Pública de SC, que acreditaram na minha ideia, sendo que aqueles catarinenses que convidei primeiro, a maioria frequentadores e até criadores da Barca dos Livros, que deixaram o meu projeto para depois de vê-lo prosperar, não ousaram e nem foram solitários com o projeto que doei ao nosso Brasil, tendo Florianópolis como ninho de gestação do primeiro Embrião, cá estou a entender tua CARTA. Só vivendo a experiência é que conseguimos, não nos comover, mas sermos solitários. Jamais desista desse sonho não sonhado só. Crianças de todas as idades, velhos e novos, conhecedores e sábios vão estar ao teu lado – que sabemos: A Barca dos Livros. Sempre admirei tua garra e o amor que tens por tudo o que vens fazendo. Vamos sentar para conversar?
    Claudete Terezinha da Mata (Pedagoga, Especialista e Mestre em Psicopedagogia Clínica e Institucional, Militante da Arte de Contar Histórias, Atriz Bonequeira, Escritora Contista, Artesã Bonequeira, Oleira, Pesquisadora de Culturas Esquecidas, Mediadora do Livro e da Leitura Animada e Compartilhada e Presidente Nacional-Fundadora da Academia Brasileira de Contadores de Histórias)

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