Tripulante da Barca dos Livros tem conto premiado!

Tanira Piacentini, uma das fundadoras da Sociedade Amantes da Leitura e da Biblioteca Barca dos Livros, teve seu conto Os olhos do meu avô premiado no Concurso Talentos da Maturidade 2010, do Banco Santander, na área de Literatura.

É com satisfação que o disponibilizamos aqui para leitura. Para conhecer os demais premiados, em todas as áreas, clique www.talentosdamaturidade.com.br

Os olhos do meu avô

O meu avô também tinha um olho de vidro. O olho era duro, meu avô olhava doce e macio. Será que eu o amei bastante? Será que ele soube que eu o amava muito? As botinhas do meu irmão nos pés do meu avô: eram a liberdade? A promessa de um novo amor? Meu avô via qual uva?

Meu avô tinha mãos para as plantas, tinha mãos para os bichos. Com o canivete prateado fazia as mais lindas pontas de lápis, e redondos roletes de cana. Sentado na calçada, descascava a cana e cortava. Nós o abraçávamos pelas costas, ele balançava e a gente roubava o pedaço da cana. Ela também era doce, descia macio, como seu olhar de olho de vidro.

O olho de vidro do meu avô nos dava pontos diante das outras crianças: ninguém mais tinha avô com olho de vidro. Meu avô tira o olho e pega na mão, duvida? Quer apostar o quê? Dindo, tira o olho pra ele ver… E a gente ganhava até as bolinhas de gude de coleção. De vidro, como o olho do meu avô.

No começo eu achava que ele botasse bolinha de gude atrás da pálpebra.  Mas bolinha pintada de azul, meio leitosa. Tinha medo de segurar. Criança é assim, nojentosa, inventa agonias e arrepios. Depois acostumei, ajudava a lavar. Como meu avô perdeu o olho? Na guerra, eu respondia. Ele tinha uma foto linda, de soldado de olhos azuis. Ele levou um tiro e perdeu o olho. Mas não furou a cabeça? Não, acho que o osso era duro, não deixou a bala passar. Ou saiu pelo buraco da orelha, sei lá!

Hoje eu sei que meu avô não foi à guerra. E eu quis esquecer como foi. Mas ficava pensando: o que enxergam olhos de vidro? Que distâncias alcançam?  Meu avô era branco, e o assum era preto, mas furaram o olho dele pra ele assim cantar melhor… Meu avô não cantava pela boca, cantava pelo olho de vidro, e pariu um filho que amava os livros, a música e as lonjuras. Junto com sua Amália, nada Amélia, enxergou através e para além do vidro do olho, que olhava meu pai com orgulho, respeito e admiração. E pingava ternura quando olhava para nós, seus únicos sete netos.

O olho de vidro do meu avô refletia o mundo em azul. Às vezes virava cinza, e havia nuvens, nebulosas e neblinas. Não se enxergava nele uma estrela sequer, mas eu sabia que muitas moravam lá, atrás daquele azul meio nublado. O brilho delas aparecia nas mãos que faziam pontas elegantes e fortes nos lápis pretos Faber Castel: ninguém no colégio tinha lápis apontados como os nossos. Feitas com o mesmo canivete que estripava passarinhos – assados, esquecíamos do seu vôo, não das suas cores, eternizadas nas coleções de penas. O brilho das estrelas nas mãos também nutria rosas, gerânios, violetas e alfaces, couves e radiches que plantava sob as ordens da Dinda ou da minha mãe.

Acho que o olho de vidro de meu avô, no seu fixo, encantava as moças, que nem cobra encanta quem olha no olho dela: minha avó vivia mandando empregada embora, assanhadas, estavam namorando meu avô. Lembro de uma Maria, cheia de carnes, dedos bons de fritar bolinhos. Tinha mesmo jeito de sonsa, olhava rebisbaixo, como quem não está. Pois minha avó decretou: Maria tá namorando o avô de vocês. Mandei fazer as malas (ela nem tinha mala, era só mesmo um jeito que gente grande usa para dar mais peso às palavras – aprendi isso depois). E lá foi Maria pro ponto de ônibus, sem malas, só com uma sacola de pano numa mão, e sua honra de moça pobre na outra. Nós, criançada da vizinhança, atrás dela gritando: A Maria é namorada do Dindo, a Maria… Se ela era, se chorou, se ficou com vergonha ou raiva, não sei. Criança é assim mesmo, malda sem querer maldar. Não tive coragem de perguntar pro meu avô se o olho de vidro dele tinha mesmo encantado Maria. Ele nunca disse nada, mas lembro que seu olho passou um tempo sem refletir azul, parado, macambúzio, nebuloso. Será que meu avô era mesmo pirata e roubava o coração das moças?

Muitos anos depois, minha vó morreu. Meu avô chorou muito, não lembro se rolou alguma lágrima do vidro do olho. No velório, ficava ali sentado, segurando a mão dela, olhando fixo, querendo encantar. Mas ela não abriu os olhos e por isso não se encantou, foi embora mesmo. No cemitério, todo mundo ouviu ele gritar: e agora, Amália, o que vou fazer? Naquele momento tive certeza de que seu olho de vidro, se encantava as moças, era sem querer encantar, era uma coisa do olho, não do meu avô: ele queria só os encantos de cetim da minha vó, suas chinelas macias, suas compotas de pêssego verde, as macarronadas de domingo, o cheiro de alecrim na roupa de cama branca imaculada, os doces de figo, o brilho de cera na sala e na vida.

Uma vez eu li que o que enxerga em nós não são os olhos, é uma fada que mora dentro de nós (foi Monteiro Lobato quem disse, e portanto deve ser verdade). Eu pensava: será que a fada que mora dentro do meu avô também tem um olho de vidro? Ou o meu avô enxerga duas vezes pelo olho azul, com os dois olhos da fada… Pois a fada invisível que morava dentro da minha vó mudou-se em maio. Foram embora, mas meu avô não ficou só: o pai, a mãe, os seis netos mais o sétimo ainda na barriga, os irmãos fizeram ele continuar. E o brilho do olho voltou ao azul, e ele lavou bem o olho de ver pra dentro, que enxergou através do cinza um coração meio sofrido, meio doente, meio apressado, meio assanhado. Viu só meio porque pra dentro só olhou o olho de vidro – será que quem tem dois olhos enxerga melhor pra fora que pra dentro? Que quem tem um olho de vidro enxerga pra fora e pra dentro, mesmo que só meio?

Mas o olho de vidro do meu avô enxergou inteiro sua alma, sua palma: decidiu renovar. Calçou botinhas sem meia e bateu asas pra fora da tristeza, porém não do encantamento da minha vó. Todas as tarde tomava banho, vestia roupa limpa que minha mãe mandava lavar e cheio de ternura ia pra praça com seus amigos, todos viúvos. Eu ria dele, não via a graça que ele enxergava naquilo. Ele, porém, enxergou e o seu olho de vidro voltou a encantar, agora uma jovem senhora solteira e enfermeira. Os amigos disseram: casa com ela, uma mulher sem bens, te fará bem cuidando de ti, e ficará bem com os teus bens quando te fores. Casa com ela, disseram os irmãos. Casa com ela, disseram meu pai, minha mãe e todos os netos, até o sétimo, que refletiu nos olhos azuis o azul do olho do avô – olhava sem nuvens, o menino.

Só faltava quebrar o encantamento da minha vó. Pra ela entregar a chave da casa e da vida, deixá-lo solto para prender outros olhos no fixo do olho de vidro. Ele avisou meu pai: vou pedir conselho à tua mãe. E fez novena, rezou nove dias no cemitério e na igreja da praça. Sexta-feira à noite ele avisou: tinha terminado a novena, agora era só esperar. Não esperou. Era outubro, e a fada invisível que morava dentro dele mudou-se exatos seis meses depois que a fada da minha vó tinha partido.

Será que ele levou seu olho de vidro? Acho que a nuvem que havia dentro dele lavou todo o silêncio do meu avô. E às vezes acho que o olho de vidro do meu avô ainda me vê e fala comigo sobre coisas que ainda não sei. Mas vou saber.

 

Tanira Piacentini, uma das fundadoras da Sociedade Amantes da Leitura e da Biblioteca Barca dos Livros, teve seu conto Os olhos do meu avô premiado no Concurso Talentos da Maturidade 2010, do Banco Santander, na área de Literatura. É com satisfação que o disponibilizamos aqui para leitura. Para conhecer os demais premiados, em todas as áreas, clique www.talentosdamaturidade.com.br

Os olhos do meu avô

O meu avô também tinha um olho de vidro. O olho era duro, meu avô olhava doce e macio. Será que eu o amei bastante? Será que ele soube que eu o amava muito? As botinhas do meu irmão nos pés do meu avô: eram a liberdade? A promessa de um novo amor? Meu avô via qual uva?

Meu avô tinha mãos para as plantas, tinha mãos para os bichos. Com o canivete prateado fazia as mais lindas pontas de lápis, e redondos roletes de cana. Sentado na calçada, descascava a cana e cortava. Nós o abraçávamos pelas costas, ele balançava e a gente roubava o pedaço da cana. Ela também era doce, descia macio, como seu olhar de olho de vidro.

O olho de vidro do meu avô nos dava pontos diante das outras crianças: ninguém mais tinha avô com olho de vidro. Meu avô tira o olho e pega na mão, duvida? Quer apostar o quê? Dindo, tira o olho pra ele ver… E a gente ganhava até as bolinhas de gude de coleção. De vidro, como o olho do meu avô.

No começo eu achava que ele botasse bolinha de gude atrás da pálpebra.  Mas bolinha pintada de azul, meio leitosa. Tinha medo de segurar. Criança é assim, nojentosa, inventa agonias e arrepios. Depois acostumei, ajudava a lavar. Como meu avô perdeu o olho? Na guerra, eu respondia. Ele tinha uma foto linda, de soldado de olhos azuis. Ele levou um tiro e perdeu o olho. Mas não furou a cabeça? Não, acho que o osso era duro, não deixou a bala passar. Ou saiu pelo buraco da orelha, sei lá!

Hoje eu sei que meu avô não foi à guerra. E eu quis esquecer como foi. Mas ficava pensando: o que enxergam olhos de vidro? Que distâncias alcançam?  Meu avô era branco, e o assum era preto, mas furaram o olho dele pra ele assim cantar melhor… Meu avô não cantava pela boca, cantava pelo olho de vidro, e pariu um filho que amava os livros, a música e as lonjuras. Junto com sua Amália, nada Amélia, enxergou através e para além do vidro do olho, que olhava meu pai com orgulho, respeito e admiração. E pingava ternura quando olhava para nós, seus únicos sete netos.

O olho de vidro do meu avô refletia o mundo em azul. Às vezes virava cinza, e havia nuvens, nebulosas e neblinas. Não se enxergava nele uma estrela sequer, mas eu sabia que muitas moravam lá, atrás daquele azul meio nublado. O brilho delas aparecia nas mãos que faziam pontas elegantes e fortes nos lápis pretos Faber Castel: ninguém no colégio tinha lápis apontados como os nossos. Feitas com o mesmo canivete que estripava passarinhos – assados, esquecíamos do seu vôo, não das suas cores, eternizadas nas coleções de penas. O brilho das estrelas nas mãos também nutria rosas, gerânios, violetas e alfaces, couves e radiches que plantava sob as ordens da Dinda ou da minha mãe.

Acho que o olho de vidro de meu avô, no seu fixo, encantava as moças, que nem cobra encanta quem olha no olho dela: minha avó vivia mandando empregada embora, assanhadas, estavam namorando meu avô. Lembro de uma Maria, cheia de carnes, dedos bons de fritar bolinhos. Tinha mesmo jeito de sonsa, olhava rebisbaixo, como quem não está. Pois minha avó decretou: Maria tá namorando o avô de vocês. Mandei fazer as malas (ela nem tinha mala, era só mesmo um jeito que gente grande usa para dar mais peso às palavras – aprendi isso depois). E lá foi Maria pro ponto de ônibus, sem malas, só com uma sacola de pano numa mão, e sua honra de moça pobre na outra. Nós, criançada da vizinhança, atrás dela gritando: A Maria é namorada do Dindo, a Maria… Se ela era, se chorou, se ficou com vergonha ou raiva, não sei. Criança é assim mesmo, malda sem querer maldar. Não tive coragem de perguntar pro meu avô se o olho de vidro dele tinha mesmo encantado Maria. Ele nunca disse nada, mas lembro que seu olho passou um tempo sem refletir azul, parado, macambúzio, nebuloso. Será que meu avô era mesmo pirata e roubava o coração das moças?

Muitos anos depois, minha vó morreu. Meu avô chorou muito, não lembro se rolou alguma lágrima do vidro do olho. No velório, ficava ali sentado, segurando a mão dela, olhando fixo, querendo encantar. Mas ela não abriu os olhos e por isso não se encantou, foi embora mesmo. No cemitério, todo mundo ouviu ele gritar: e agora, Amália, o que vou fazer? Naquele momento tive certeza de que seu olho de vidro, se encantava as moças, era sem querer encantar, era uma coisa do olho, não do meu avô: ele queria só os encantos de cetim da minha vó, suas chinelas macias, suas compotas de pêssego verde, as macarronadas de domingo, o cheiro de alecrim na roupa de cama branca imaculada, os doces de figo, o brilho de cera na sala e na vida.

Uma vez eu li que o que enxerga em nós não são os olhos, é uma fada que mora dentro de nós (foi Monteiro Lobato quem disse, e portanto deve ser verdade). Eu pensava: será que a fada que mora dentro do meu avô também tem um olho de vidro? Ou o meu avô enxerga duas vezes pelo olho azul, com os dois olhos da fada… Pois a fada invisível que morava dentro da minha vó mudou-se em maio. Foram embora, mas meu avô não ficou só: o pai, a mãe, os seis netos mais o sétimo ainda na barriga, os irmãos fizeram ele continuar. E o brilho do olho voltou ao azul, e ele lavou bem o olho de ver pra dentro, que enxergou através do cinza um coração meio sofrido, meio doente, meio apressado, meio assanhado. Viu só meio porque pra dentro só olhou o olho de vidro – será que quem tem dois olhos enxerga melhor pra fora que pra dentro? Que quem tem um olho de vidro enxerga pra fora e pra dentro, mesmo que só meio?

Mas o olho de vidro do meu avô enxergou inteiro sua alma, sua palma: decidiu renovar. Calçou botinhas sem meia e bateu asas pra fora da tristeza, porém não do encantamento da minha vó. Todas as tarde tomava banho, vestia roupa limpa que minha mãe mandava lavar e cheio de ternura ia pra praça com seus amigos, todos viúvos. Eu ria dele, não via a graça que ele enxergava naquilo. Ele, porém, enxergou e o seu olho de vidro voltou a encantar, agora uma jovem senhora solteira e enfermeira. Os amigos disseram: casa com ela, uma mulher sem bens, te fará bem cuidando de ti, e ficará bem com os teus bens quando te fores. Casa com ela, disseram os irmãos. Casa com ela, disseram meu pai, minha mãe e todos os netos, até o sétimo, que refletiu nos olhos azuis o azul do olho do avô – olhava sem nuvens, o menino.

Só faltava quebrar o encantamento da minha vó. Pra ela entregar a chave da casa e da vida, deixá-lo solto para prender outros olhos no fixo do olho de vidro. Ele avisou meu pai: vou pedir conselho à tua mãe. E fez novena, rezou nove dias no cemitério e na igreja da praça. Sexta-feira à noite ele avisou: tinha terminado a novena, agora era só esperar. Não esperou. Era outubro, e a fada invisível que morava dentro dele mudou-se exatos seis meses depois que a fada da minha vó tinha partido.

Será que ele levou seu olho de vidro? Acho que a nuvem que havia dentro dele lavou todo o silêncio do meu avô. E às vezes acho que o olho de vidro do meu avô ainda me vê e fala comigo sobre coisas que ainda não sei. Mas vou saber.

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Sobre Barca dos Livros

A Barca dos Livros é uma biblioteca comunitária, mantida pela Sociedade Amantes da Leitura, com sede na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, que defende a importância da leitura para o desenvolvimento comunitário e individual. Desde o ano de 2009 é reconhecida como Ponto de Cultura. Tem como missão facilitar o acesso ao livro e à leitura através do atendimento diário e gratuito à comunidade, promovendo a formação de leitores e de mediadores de leitura. Funcionamento: Terça-feira a sábado, das 14h às 19h. Telefone: 48 3879.3208 Contribua com a Barca dos Livros! Banco do Brasil, Ag. 3185-2 – CC 13.058-3. CNPJ 06 022 478/0001-07. Beneficiário Sociedade Amantes da Leitura.

6 respostas em “Tripulante da Barca dos Livros tem conto premiado!

  1. Parabéns, Tanira, adorei o conto. Merecido o prêmio. Melhor ainda podermos usufruir deste potencial todo na Barca. Até!

  2. Tanira, amei teu conto! saudade de ti! a turma de 83 do Aplicação está “se achando” no facebook; te aguardamos por lá; queremos fazer um encontro no verão. bjos
    Tati Haas Maciel

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